segunda-feira, 7 de março de 2011
no need to say goodbye
O dia havia nascido como outro qualquer, a brisa soprava do mar passando por um túnel de prédios que a direcionava até os pés do Cristo Redentor, que da janela do quarto se assemelhava mais a uma tradicional nuvem de chuva do que uma das sete maravilhas do mundo.
Retorno ao quarto e já não sei qual será ao certo o destino daquele dia que acabara de nascer em minha pele. Mais um local onde vou ao meu encontro, mas chego após a minha partida. Mais um vazio querendo se preenchido, são tantos que não poderia realmente haver.
Desço, vou até a rua, constantemente cruzada por pessoas à falar, a conduzir sua própria ausência pelo caminho do tudo, todos em passos rápidos, como se atrasados para ‘pegar o ônibus’, subo pela rua Santa Clara e dobro a esquina na Toneleiros; me dirijo à galeria que se encontra próximo à estação Siqueira Campos. Preciso me conectar à rede de amigos virtual, orkut, como em uma esperança de algum recado que me tire daquele mórbido estagio vital. Mas ali me encontro tão vazio no virtual como no real.
São tantas ruas, tantos cruzamentos, tantas verdades conduzindo o destino de tudo pelas ruas de nada, tantos apartamentos, tantas vidas a se condicionar por entre ruas estreitas que atravessam túneis e conduzem-lhes para gaiolas empilhadas, onde em um pseudônimo social tentam contribuir com migalhas e garantir, em contrapartida, migalhas em suas mesas.
E, eu me procuro em cada rosto, em cada detalhe, em cada sentimento abandonado, em cada esquina, e cada uma daquelas pessoas sou eu, e por isso sou nada.
A noite cai, a nuvem abandona a estátua que permanece inerte, de braços abertos, a observar a cidade com a mesma indiferença e seriedade que uma águia no alto do seu ninho.
A cidade se ilumina, os papeis se invertem, os trabalhadores, em trens lotados, atravessam a cidade em covas férreas, por cima, nos cruzamentos pubianos, os boêmios se preparam para mais um dia de lubrificação social. Ambos interagem e faz com que a dinâmica seja permanente.
Sou o primeiro a chegar, apesar das luzes e o som acompanhando o ritmo do coração, tudo se encontra em um silencio mórbido, não me sinto em casa, preciso saber os movimentos que devo fazer.
Desço e compro uma dose de tequila, o “barman” me pergunta: “prata ou dourada”? digo a ele que não me importa, desde que seja uma dose bem servida. Preciso deixar de racionalizar o ambiente e apenas sentir; vou tentar me manter neutro, sem maiores pretensões, isso é impossível.
Quatro e meia da manhã, um espanhol mal falado, tento me comunicar, uma chuva fina derrama sobre as luzes da rua Raul Pompéia, a partir dali meu destino é incerto, em um ponto de ônibus desejo um que me leve até à Lapa. Tudo é novo, quem sou e quem está do meu lado. “ Que o líquido fermente, se separem as sementes…é…. manhãs e os pingos nos ‘is’, que a lente do amor aumente, faça presente o que era ausente, porque só se vive por um triz”.
Consigo entrar em um vã que nos conduz até a Lapa, o bairro se encontra ermo, apenas alguns mendigos e a sensação de plena ditadura a soprar vozes sinistras por entre as janelas dos sobrados antigos. Os restos mortais de uma noite, para os mendigos que se apóiam nos arcos. Para mim a consumação de um noite. Ambos na mesma situação; Enquanto alguns mendigam alimento, eu mendigo vida pulsante. “ meu coração é uma balde despejado. Como os que invocam espíritos, invoco a mim mesmo e não encontro nada”.
Pego um táxi e mergulho em um outro universo, longe de qualquer realidade, busco um hotel onde eu possa passar o resto da noite.Tudo tilinta e ofusca de tanta novidade. O local, a situação, a forma, a língua, as ruas, a casa, os primeiros raios do sol, o quarto do hotel, a química, o beijo, a tv mal posicionada, o ventilador, os corredores e as escadas a estalarem.
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